Como faz poema disso

Da dor que vem

Não saem palavras boas.

Como faz o poeta que sofre e não é de amor?

Sofre pelo indizível e nada fala,

Tudo falta

Traumas

Eu devia ter uns 9 anos, não sei ao certo. Início de ano era uma loucura com as compras da escola. Materiais, e livros, e uniformes e gastos. Muitos gastos. Fui criado por minha mãe apenas, batalhadora sempre buscou me dar o melhor, mesmo que o melhor fosse pouco, mesmo que faltasse, tinha. Um complexo paradoxo de culpa.

Foi um desses inícios que ao ver que faltaria, resolvi buscar ajuda. Eram os livros da escola, alguns, e caros. Fui ao meu pai, e dele só trouxe traumas, e desafetos. O que minha mãe sofria para me dar, ele desconsiderava como a um mendigo. Desses que a gente fecha o vidro. Lembro que, aos prantos, falei com a merda, apenas ela me ouvia.

Dessa situação, vem minha dificuldade em pedir ajuda. Vou ao limite da situação, ao desespero. Também vem a ansiedade que me atrapalha com quase tudo. Crio cenários apocalípticos a todo tempo, me desespero com certa frequência, e me desmotivo facilmente.

Por padrão me saio bem das situações, mas não sem uma boa dose de sofrimento. Noites sem sono, maços e maços de cigarros. Difícil ser eu.

Até que há dois anos, resolvi fazer análise. Pedi ajuda. Minha terapeuta tem me auxiliado nessa travessia para dentro de mim. Como um barqueiro que calmante atravessa o rio tenho enfrentado as correntezas do meu inconsciente, numa barca segura. Me desfazendo do que sou, às margens de mim.

O que vai e o que chegou

Já aprendi as receitas, de alguma forma me médico. Tenho sofrido as vezes, errado as vezes. E me conformando com os erros, deixando ir. Sigo trabalhando as lógicas de existir, e viver para além de ser feliz

Viver é sentir se triste e não em culpa. Se você fica pra baixo, por que talvez tenha escolhido errado, ou por ter feito algo. Não se culpe. Culpa é o oposto de viver. As escolhas que fizemos só podem ser consideradas como as possibilidades atuais. Você consegue isso, e ok! Não existe motivo para acreditar que poderia ser diferente. Espero não o surpreender: Não é, nem poderia ser. A culpa não serve de nada

Entender-se, perdoar-se é aceitar a vida como é. E dentro das possibilidades reais. Somos o que fizemos até aqui, e agora esculpimos a martelo e forja nosso eu. Aprendendo como um artista, que pela pedra demonstra seu ser.

E assim o sou, o que vai e o que chegou. A cada talho na pedra, uma chance nova de ser melhor, aperfeiçoar o corte, controlar a força esculpindo a minha obra de vida melhor a todo o tempo.

Viver é esculpir

Carioca


Nunca fui ao Catete
Não o vi no Leblon
Já namorei Ipanema
Praia do Ar-po-a-dor
Poesia do Rio.

Dias assim…

É sempre estranho ter dias assim. Terças assim. Dias esses são geralmente silenciosos. Não causam estardalhaço algum ao que abrem a porta. Chegam mansos, com desânimos calmos, inquietudes leves. Eu chamaria: monotonia fácil.

A carga é baixa, mas constante. Você não sente o peso começando a crescer. Está um grama mais pesado, a cada segundo. Um grama não é nada, e a gente acostuma rápido. Nem percebe.

O dia acaba longo, arrastado, parece que não termina. As horas já não passam, o ponteiro marca a mesma hora, por horas. Dias assim são intermináveis.

Dias assim passam. Este também passa, mas leva tempo.

Sobre filmes

Ontem foi dia de Oscar, e quase todos os filmes que eu torci perderam. O que me parece bom, por que quase todos que eu não assisti ganharam.

O que me deixa deveras preocupado com meu senso crítico cinematográfico. Mas entre os copos cheios e vazios que o Oscar me apresentou, sigo com uma bela lista de filmes para assistir. Nomadland, O Som do Silêncio, Professor Polvo.

Esse último tem que ser muito bom. Diria que ele tem que estar acima de a Marcha dos Pinguins, ou qualquer um do Adam Sandler.

Assisti ontem ao chileno Agente Duplo. Lindo filme, documentário indicado ao Oscar. Uma poesia simbólica. Um escritório de detetives, contrata homem entre 80 e 90 anos, para ser agente infiltrado, em uma casa de repouso.

Sergio Chamy é um grande protagonista. Seu jeito cavalheiro, sua inteligência e delicadeza ao agir merecem por si só um prêmio.

Grande filme, tocante.

(Eu sou ele)

É difícil explicar. Mas acho que é fácil entender:

– Eu sou o cara do parênteses.

Vou tentar ir ilustrando algumas viagens aí do transeunte. Dar um acabamento fino nas viagens. Editar. Filtrar. Limpar um pouco da droga, senhores. Vou confessar que esse rapaz tá quase sempre drogado. Infeliz! Vou arrumar o que der. Para o que não der eu vejo se vale a pena intervir. Tô aqui contigo, qualquer coisa vem comigo. Vamos conversando. Eu te entrego as barbada amigo.

A partir daqui sou o teu “pega a visão”. O moral da história. Vou te dar as entrelinhas! Os “entre aspas”. O “entre nos dois”. Só achei melhor usar parênteses.

Prazer, Parênteses.

1. As duas consciências

Queria entender realmente se todo mundo tem essa coisa de uma consciência falante. Ou uma segunda voz.

Uma voz que fala comigo como se fosse um outro alguém. Um outro ser. Só que de dentro. Ao passo que vivo tenho ela. Vozes mudam dentro cabeça. As vezes as vozes somem. As vezes aparecem. É bem estranho lidar. Mas não uma loucura. Deixo claro isso, as vozes não são fantasiosas, ou distorcem a realidade. Eu sei o que acontece, é racional. Mas ela está lá, no fundo. Atrapalhando umas coisas, ajudando em outras. Mascarando sentimentos, disfarçando.

Tenho essa coisa que é só minha, mas esqueça. Já é hora de dormir. E ainda estamos no início.